Spotlight: segredos revelados

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spotlight posterUm professor certa vez me disse que o trabalho do jornalista é incomodar. Falar sobre o que ninguém quer ouvir, o que ninguém quer que seja ouvido. Colocar o jornalismo,  jornalismo de verdade, em foco é o que faz de Spotlight um indicado ao Oscar.

Mark Ruffalo, Rachel McAdams e Brian D’Arcy, liderados por Michael Keaton formam a equipe investigativa Spotlight, que a pedido do novo editor do Boston Globe, interpretado por Liev Schreiber, examinam a fundo um caso de pedofilia na Igreja de Boston e acabam descobrindo que o problema é muito mais sério e envolve a instituição como um todo.

Tinha tudo para ser um filme imperdível, mas falha miseravelmente. A sensação que ficou para mim é que ao tentar se manter fiel a história e personagens reais, Josh Singer e Tom McCarthy (indicados ao Oscar pelo roteiro) acabaram esquecendo como contar uma boa história. Eu entendo que em jornalismo investigativo o dia-a-dia não deve ser nada glamuroso (bem como em qualquer redação, para falar a verdade), mas o filme dá tantas voltas sem que os personagens consigam qualquer resposta, para elas aparecerem da forma mais inverossímil que dá para imaginar. As três maiores fontes que embasam a história, depois de muito relutar, acabam entregando as informações, sob a mínima pressão, no desfecho do filme.

Da mesma forma é só na última meia hora que o roteiro tenta nos lembrar que jornalistas são humanos, em algumas das cenas mais estranhas do filme. A conversa de Ruffalo Rachel McAdams, em que eu podia jurar que o personagem dele ia admitir ter sido abusado na infância, mas parece ter sido poupado disso para não constranger o jornalista no qual foi baseado. A preocupação com a família sempre ausente de Brian e a cena de McAdams com a avó, em que ela mostra a reportagem e ela pede água. Melhor teria sido evitar esse tipo cena dramática perto do fim, já que não houve nenhum desenvolvimento para tal, sob a justificativa de que o que importa no jornalismo é a matéria não o jornalista.

Os momentos mais humanos são de fato protagonizados pelas vítimas que concedem entrevistas. Destaque aqui Michael Cyril Creighton, que interpreta seu personagem de forma comovente, na melhor cena do filme. Além disso, o filme tem algumas boas imagens

Talvez você saia do cinema com a sensação de ter gostado do filme, uma vez que é inevitável sentir-se satisfeito com a punição de pedófilos, mas antes mesmo de chegar em casa, vai se dar conta de que: eles não são de fato punidos; você gastou duas horas da sua vida para filme concluir que a igreja não presta, algo que, se você comprou esse ingresso, já sabia e você pode escrever uma resenha inteira sobre o filme usando apenas os nomes dos atores, não dos personagens, porque o que interessa aqui é a matéria.

Ao entrar no cinema tinha a sensação de que a indicação de Spotlight era um prêmio de consolação pelo tema; ao sair, a certeza de que a indicação foi totalmente política e o medo de que ganhe, mesmo sem méritos cinematográficos, apenas pela visão política.


 

Indicado ao Oscar nas categorias:

Melhor filme

Ator Coadjuvante – Mark Ruffalo

Atriz Coadjuvante – Rachel McAdams

Direção – Tom McCarthy

Roteiro – Josh Singer e Tom McCarthy

Edição – Tom McArdle

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